 |
E saiu hoje na Folha de São Paulo, crítica do nosso espetáculo "O que restou do Sagrado". Está transcrito aí embaixo. Faço alguns comentários a respeito logo após o texto do Sérgio.
TEATRO/"O QUE RESTOU DO SAGRADO"
Bortolotto vocifera o Evangelho segundo a praça Roosevelt
SERGIO SALVIA COELHO CRÍTICO DA FOLHA
"O que Restou do Sagrado" é um "Entre Quatro Paredes" em rotação acelerada. Como na fábula de Sartre, pessoas que não se conhecem são confinadas em um espaço alegórico -uma cruz flutua sobre o cenário, vista de cima para se torturarem mutuamente com confissões terríveis. Ao contrário, no entanto, da meticulosa ironia existencialista, aqui o texto jorra como um vômito, o ritmo e o tom dos atores têm a urgência do punk rock. Trata-se de salvar o mundo do Armagedon através do arrependimento. Mas para isso é preciso antes provar a existência de Deus. Mais do que em outras montagens do Cemitério dos Automóveis, aqui a peça de tese se impõe sobre a crônica de geração. Não temos mais a fraternal anarquia de Mirisola, que se oferecia poucos metros adiante nessa mesma praça, em "O Herói Devolvido", nem a solidariedade delicada de "Homens, Santos e Desertores". Os outros podem ser o Purgatório ou o Céu; o Inferno é o mundo abandonado por Deus. O Evangelho segundo Bortolotto parte da frase de santo Agostinho: "Deus permitiu o mal para dele extrair o bem", ou seja, a maldade do mundo e a ausência de intervenção divina são a pedagogia de Deus. Ex-seminarista, Bortolotto tem a nostalgia de um mundo que fazia sentido. Como Buñuel, vira do avesso a catequese para revistar seus bolsos, com um humor furioso diante da mesquinha moral burguesa. Instiga seus atores a vociferarem sem medo do ridículo, instaura um teatro de bonecos esquizofrênico, no qual só os mais aptos sobrevivem. Isto é, os que têm mais cancha, como Fernanda Dumbra e Lavínia Pannunzio, viscerais sem perderem a esperteza nem a agilidade do texto, e mesmo Wilton Andrade, que supre com carisma o que lhe falta de técnica. Nelson Peres, que procura uma maior interiorização no papel do padre, acaba ofuscado, e Mariana Leme ainda se intimida. Gabriel Pinheiro se superficializa na caricatura, e o próprio Bortolotto abusa às vezes do distanciamento. O principal reparo a fazer é sobre a previsibilidade da peça. Logo fica claro que cada um terá seu solo, e o que têm a dizer, apesar de muitas vezes antológico, é muito parecido. A alternância de diálogos sobrepostos com calmarias bruscas é um desafio técnico bem executado, mas não chega a estabelecer um ponto de chegada. É como se Deus estivesse no silêncio da pausa, que só pode ser ouvido após a overdose de decibéis. Bortolotto não se coloca como um Moisés da praça Roosevelt: abre a discussão, para espalhá-la na possível teologia cotidiana.
O que Restou do Sagrado Texto e direção: Mário Bortolotto Com: Lavínia Pannunzio, Fernanda Dumbra, Mário Bortolotto e outros Onde: Espaço dos Satyros (pça. Franklin Roosevelt, 214, tel. 3258-6345) Quando: ter. e qua., às 21h30. Até 15/12 Quanto: R$ 10
_________________________________________________________________________
O QUE EU PENSO A RESPEITO : Concordo quando ele diz que "o ritmo e o tom dos atores tem a urgência do punk rock". É exatamente isso. Mas é um punk rock com partitura. Cada imprecação, grito, ou gesticular violento tem uma marcação precisa, mais do que exata. Mas acho que o Sérgio sacou isso. Essa era a intenção. Mas é que tem gente que pensa que aquilo lá é uma gritaria desencontrada. Pois vou dizer: Pra fazer aquilo lá tem que ter a manha que alguns chamam de "técnica". Não é qualquer um que toca punk rock com classe. Apenas tenho que discordar quando ele questiona a interpretação dos atores, mais precisamente a Mari e o Gabriel. Não acredito que a Mariana Leme esteja intimidada. Ela faz exatamente o que o personagem pede. Se alguém está intimidado em cena, é o personagem e não a atriz. E quanto ao Gabriel, é claro que o personagem é uma caricatura. Se não fosse, não teria usado para o seu solo uma trilha de desenhos animados. É essa a intenção e Gabriel cumpre com perfeição o que lhe foi designado. Há que se discutir então o porque da opção do diretor por esse tipo de interpretação e não o trabalho do Gabriel. E o Nelson não está procurando uma maior interiorização. O personagem dele é mais interiorizado e ponto. E quando é chamado a ligar a sua guitarra moto serra, também não deixa por menos. E quando ele fala da previsibilidade da peça em relação aos solos eu ainda vou além. É claro que isso é previsível. Mas não no decorrer do espetáculo. É previsível na própria sinopse da peça quando deixo claro que cada um irá confessar os seus pecados. Achei que isso estava muito claro. Não pretendia esconder de ninguém o que estava para acontecer em cena. E quanto ao resto não há porque discutir nada. Tenho ouvido coisas como : "Ah, Marião, mas eu teria feito assim..." Ok, Brother, você teria feito assim, mas esse é o meu concerto de punk rock. Esse é o meu "God Save the Queen". Quando eu quiser tocar violino, também vou ter a manha. Não é o momento e nem o lugar. A garotada raivosa tá invadindo squats e dizendo que a vida é cheia de som e fúria. Talvez sim. E eu tô crente de saber (gostaram do "crente de saber"?) que se eu não fizer o barulho necessário, Deus vai continuar sua siesta eterna e indiferente à gritaria da molecada. A porrada tem que ser forte e eu vou ter que abusar dos décibeis. A noite vai ser longa e barulhenta. Agora vou ali ouvir o que aquele tal de John Strumer tem pra me dizer. Só pra entrar no espírito. (Pra entrar no Espírito?) Hoje tá foda, hein?
__________________________________________________________________________________
Hoje (Terça-Feira) excepcionalmente não haverá apresentação de "O que restou do Sagrado". A peça volta em cartaz amanhã (Quarta-Feira) normalmente.
Escrito por Cemitério de Automóveis às 06h58
[]
[envie esta mensagem]
|
 |
 |