Blog do Grupo de Teatro Cemitério de Automóveis
     
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O que é isto?
 


Lavínia nos mandou esse e-mail. Muito pertinente, aliás. Valeu, Lavínia.
Diamanda Galás, pra quem não sabe, é uma cantora fudidaça e impressionante. Se você ainda não ouviu a mulher, tenta não perder mais tempo.
 
 
 
Oi, queridos, eu destaquei um trecho de uma entrevista com a Diamanda Galás porque achei que tinha bastante semelhança com essa bagunça toda que as pessoas fazem quando se referem ao trabalho de vocês e meu também agora, com muito prazer.
Beijos e até +.
                  Lavínia
 
 
[volta] Em seus shows você submete a sua voz a um esforço tremendo e no final não há nenhum sinal de fadiga física. Que tipo de preparação vocal você faz?
Eu canto há anos. Tive professores de canto e estudei muita técnica vocal. Sei como colocar a voz nas cavidades cranianas e no corpo. Se eu canto um ré agudo, eu sei exatamente onde ele deve ser projetado no crânio -e não é um "esforço", é atlético. Você tem de ter preparo físico para saber o que fazer e ter condições físicas para se desviar dos obstáculos. Se você não tem, você tropeça em todos. Qualquer um que tente cantar como eu sem ter técnica vocal adequada terá uma carreira muito curta.
 
[volta] Perguntaram uma vez numa entrevista se você considerava sua arte catártica e você disse que não. Você não considera seus espetáculos catárticos mesmo?
Bem, eu preciso explicar. Minha arte é catártica, sim. Mas não da maneira como as pessoas entendem catarse, de maneira simplista. Não é só uma questão de subir num palco e gritar para me sentir melhor. Há muita disciplina nisso.

Se alguém sobe num palco e entra num estado catártico, ou seja lá o que for, só para si mesmo, e se não há musicalidade, se não há interesse artístico, eu levanto e vou embora.

Eu não sou assistente social, eu prefiro fazer algo de interesse artístico quando subo num palco.

Então quando me perguntam se meu trabalho é catártico, eu sempre digo "não", porque não quero que tirem conclusões simplistas sobre o meu trabalho. Eles pensam que sabem do que estão falando quando falam em catarse, mas não sabem. Eles acham, que se trata de alguém subir num palco e gritar -e não é isso.


 Escrito por Cemitério de Automóveis às 12h02
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O amigo Rodrigo Sommer assistiu ontem pela segunda vez nosso espetáculo e escreveu em seu blog sobre o que viu. Transcrevo o texto aí embaixo:

Muita coisa...
restou do sagrado. Fui ontem ver O que restou do sagrado? e
os caras me surpreenderam de novo. Tinha visto na estréia e ontem, depois de quase dois meses, a energia era a mesma, o que no caso específico dessa peça, com os sete atores o tempo todo no palco sem um segundo de descanso, é fundamental. Talvez foi a estréia do Ivan Cabral substituindo Nelson Peres no papel do padre que fez parecer que tudo era novo de novo, mas só sei que o texto parecia estalar na fala de cada personagem. Luz, som, elenco, tudo num entrosamento perfeito com o ótimo texto.
Vai lá hoje, ou terça e quarta que vem, que são os últimos dias.

                                                     (Rodrigo Sommer)


O que restou do sagrado?
Terça e quarta - 21h30
Teatro dos Satyros
Praça Roosevelt, 214 - Consolação
Tel : 3258-6345

 



 Escrito por Cemitério de Automóveis às 13h48
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Nesse fim de ano o Grupo Cemitério de Automóveis vai estar envolvido em uma ininterrupta programação alcóolica e teatral. Toda a Programação está no meu blog pessoal (Mário Bortolotto) linkado aí do lado. Tomem um Engov e confiram o que está pra acontecer.



 Escrito por Cemitério de Automóveis às 13h44
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O QUE RESTOU DO SAGRADO - PENÚLTIMA SEMANA

A temporada de "O que restou do Sagrado" está terminando. Hoje tem estréia de Ivan Cabral no papel do Padre. O que aconteceu foi que o Nelsinho Peres rompeu o tendão de Aquiles e nesse momento está de pernas pra cima jogando palavras cruzadas. A gente ensaiou com o Ivan durante toda a semana e ele ainda não havia trabalhado com a gente. É macaco velho de teatro e um grande ator, mas mesmo assim, ainda tá assustado com o rigor que temos com a peça. Quem nos vê sempre enchendo a cara e falando merda, pode pensar que fazemos nosso teatro de um jeito largado. O Ivan percebeu que não é bem assim, e do jeito mais dificil. E hoje ele vai estar lá em cena substituindo o nosso grande amigo e grande ator Nelsinho Peres. Estamos torcendo pelos dois. Boa sorte pra eles.

Terça e quarta - 21h30

Teatro dos Satyros

Praça Roosevelt, 214 - Consolação

Tel : 3258-6345

Ah, e quinta-feira vou estar tocando no Centro Cultural São Paulo com a banda Tempo Instável. O show começa às 19h e é completamente na faixa.

O Centro Cultural fica na Rua Vergueiro, 1000 - (Metrô Vergueiro)




 Escrito por Cemitério de Automóveis às 09h51
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A crítica Beth Néspoli do Caderno 2 do Estado de São Paulo escreveu uma crítica do nosso espetáculo "O que restou do Sagrado". Abaixo está o texto dela na íntegra e nos post seguinte estão os meus comentários.

'SAGRADO' APOSTA NO PODER DO PALCO

Essa é a qualidade essencial da peça do Grupo Cemitério de Automóveis, que consegue provocar forte empatia

Beth Néspoli

Na introdução de uma de suas críticas teatrais, Machado de Assis afirma que pretende dar ao mundo "o espetáculo espantoso de um crítico de teatro que crê no Teatro". E segue: "Se há alguma coisa a esperar para a civilização é desses meios que estão em contato com os grupos populares. Deus me absolva se há nesta convicção uma utopia de imaginação cálida."

Atualmente, na nossa frenética sociedade de consumo, mais do que nunca soa utópica a crença de que o teatro possa transformar o homem ou a civilização. No entanto, essa crença está no cerne de O Que Restou do Sagrado, texto de Mário Bortolotto - que também dirige o espetáculo, assina a trilha sonora, a iluminação e nele atua com outros seis atores.

Um grande crucifixo suspenso no fundo do palco, debaixo dele uma mesa em madeira, dois compridos bancos em diagonal e eis que o palquinho do Espaço dos Satyros é transformado em uma igreja na simples e precisa cenografia de Gabriel Pinheiro. Logo o público entrará em contato com sete personagens que chegam forçados a esse templo, atraídos por uma força misteriosa. São a escória do mundo - pedofilia, homicídio, intolerância extremada e incesto estão entre seus pecados. Juntos, vão tomar conhecimento de que de seu arrependimento sincero depende a salvação da humanidade. Porém, o mais grave pecado deles, comum a todos, é o individualismo cego. Em algum momento, rompeu-se nessa gente a percepção do elo com uma coletividade. Mais do que não querer salvar o mundo, eles parecem incapazes de compreender por que deveriam querer.

Na peça, a confissão de cada um funciona como espelho, para os outros, e para o público. Da identificação, e rejeição a tais pessoas, pode surgir a cura. Com inteligência, o espetáculo tenta conduzir o espectador à compreensão da necessidade de ser um indivíduo melhor para viver num mundo melhor. Terá o altar ou o palco, a religião ou o teatro, tal poder transformador? Em O Que Restou, há uma constante oscilação entre o ceticismo e a fé nesse poder, talvez só um recurso, bem sucedido, para escapar do dogma, do tom professoral que costuma vestir as fortes crenças. Ao fim, fica a impressão de que o autor acredita profundamente nesse poder.

No que diz respeito à encenação, Bortolotto vem se aprimorando como diretor. Há um nítido e interessante desenho no espetáculo. O agilíssimo ritmo inicial - frases sem resposta, falas atropeladas, típicas de quem não ouve o outro, não é capaz de diálogo - vai desacelerando, abrindo brechas para a audição mútua, até alcançar silêncios emocionados nos momentos finais. Bortolotto mostra ainda domínio na movimentação dos atores, cujos deslocamentos criam diferentes desenhos de cena, imprimindo dinamismo nessa peça de palavras e idéias, sem muito espaço para a ação, mas cheia de tiradas de humor negro.

Quem acompanha o trabalho desse grupo, o Cemitério de Automóveis, percebe um claro aprimoramento no que diz respeito à interpretação. Ainda assim, a partitura proposta pela direção tem um requinte que o elenco não acompanha. Certa vez, ao criticar a formação de jovens atores, José Lewgoy comentou: "Para eles raiva é gritar, emoção é chorar e naturalidade é falar de boca cheia." Trocando-se, neste último pelo cigarro e a cerveja, são esses os principais pontos de apoio do elenco. Ainda que os personagens não tenham grande complexidade psicológica - são quase tipos representativos de diferentes e negativas facetas do ser humano - sua representação poderia ser mais matizada.

Gabriel Monteiro interpreta um empresário cuja contradição é usufruir as benesses do sistema capitalista e não compreender que os excluídos são a outra face desse mesmo sistema. Seu desejo de eliminar os 'pobres e feios' da face da terra, se alcançado, significaria matar a galinha dos ovos de ouro. Personagens como ele são 'modelares' nos dias que correm. Metidos em ternos bem cortados, ostentando seus carrões, são sedutores e invejados. Interpretá-lo o tempo todo como um bufão patético - ainda que o seja aos olhos do autor - não ajuda na compreensão de seu papel na nossa sociedade. Em contraponto, a interpretação de Mariana Leme para a serviçal secretária tem a virtude de escapar dos clichês comuns a esse tipo de personagem.

Importante ressaltar que, na sessão presenciada pela crítica, tais senões não foram de forma nenhuma obstáculo à fruição do público, que reagiu com risos e silêncios atentos durante todo o espetáculo. A verdade e a intensidade com que o elenco mergulha no universo do autor certamente são fundamentais para o alcance de tal comunicação. Sem isso, de nada valeria um primoroso domínio técnico. Mas, sempre é bom lembrar, as duas coisas podem vir juntas.

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 Escrito por Cemitério de Automóveis às 19h59
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JOSÉ LEWGOY NÃO, PELO AMOR DE DEUS!

Eu nem queria comentar essa crítica. Porque assim como na crítica do Sérgio já comentada nesse blog, eu noto que há uma tentativa real de compreender o trabalho do Grupo e de fazer uma análise das mais honestas diferentemente de críticas de jornais do Rio de Janeiro por exemplo, que são simplesmente errôneas e preconceituosas e sequer dignas de serem levadas em consideração. Mas se eu não disser nada a respeito, vai ficar parecendo que eu concordo com a análise feita, principalmente quando a Bete se refere à nossa interpretação. Então sendo assim, me sinto incitado a escrever em nossa defesa, pois como diria o saudoso Kerouac "se eu não o fizer, Joyce depois de morto é que não vai fazer".

Sempre me perguntam se me incomoda ser comparado à Plínio Marcos. Respondo que não. Que tal comparação me envaidece. Me incomodaria ser comparado à Mauro Rasi. Mas na verdade, acho a comparação apressada e rasteira. Na verdade, embora admire e muito a obra do Plínio, ele nunca foi uma referência das mais importantes pra mim. Entendo que façam isso porque somos dois dramaturgos com predileção por personagens que costumam chamar de excluídos. Mas, excetuando a semelhança já citada, e se com muito esforço e boa vontade, conseguirmos ignorar o repertório de palavrões constantes em nossos textos, não há como não afirmar que as insistentes semelhanças já não irão mais existir. Entendo que os críticos tentam julgar meus trabalhos baseados pura e simplesmente em suas referencias teatrais, o que é um erro dos mais crassos. As referencias para entender o tipo de teatro que faço são outras. Já cansei de falar sobre isso. Qualquer garoto antenado que tenha assistido mais de duas peças do Grupo já sacou o mapa da mina. Mas os críticos enconchados que são em suas referencias sacralizadas, continuam a abusar de clichês teatrais na hora de nos julgarem, o que é uma pena, para ambos, para nós e para eles. Mas deixa eu me ater rapidamente ao que mais me incomodou na crítica. A infeliz frase de José Lewgoy dita com a finalidade de criticar os jovens atores e usada na crítica com o fim de exemplificar nossa possível falta de técnica. Vamos por partes. Ele diz "Para eles raiva é gritar..." Eu respondo: Às vezes você está com "raiva" em cena e você tem que gritar. Porque não? Que o diga por exemplo Sean Penn em "Sobre Meninos e Lobos" na memorável cena onde ele descobre que sua filha morreu. Já imaginaram se ele fizesse a cena com raiva contida, sem os gritos extremamente necessários e fundamentais para a cena? Ele diz também "Para eles emoção é chorar..." Eu respondo: Às vezes você está emocionado e você chora. Porque não? Que o diga por exemplo Marlon Brando em sua antológica cena de "Um bonde chamado Desejo" ou James Dean em "Vidas Amargas". E sua frase infeliz ainda termina com essa: "Para eles, naturalidade é falar de boca cheia". Bem, aí até a Eva do conto "Eva é nome de Buceta" do Herói Devolvido do Mirisola sabe o quanto é difícil. Nem precisa ser atriz. Então não me vem falar que é fácil não, porra. O que eu quero dizer em resumo, é que há várias maneiras de se preparar Neston. Nesta peça eu optei conscientemente por uma interpretação esparramada e amplificada, ou como diria o Sérgio, numa "overdose de decibéis". Já optei por outras linhas de interpretação em outras montagens. E optei por essa linha sabendo que ela serviria melhor à esse espetáculo, e consequentemente comunicaria muito mais esse texto em particular. E foi o que aconteceu como a própria Bete notou e dá o seu testemunho oportuno ao final de sua crítica. E para conseguir trabalhar dentro dessa linha, tão difícil como qualquer outra, e às vezes, por demais subestimada, eu precisaria de um elenco capaz de executar com precisão a "partitura" proposta. E olha que é uma partitura milimetricamente executada. O ator Ivan Cabral que está forçosamente (espero que alegremente) substituindo Nelson Peres que o diga. E eu tinha esse elenco à mão. E eles deram conta. Se não tivessem dado, eu não conseguiria tal comunicação e o espetáculo seria um enorme e retumbante fracasso. E eu ia ter que assumir a culpa, como às vezes você tem que assumir quando faz um passe errado num jogo de futebol e o time adversário faz o gol. Simples assim. Você fala "desculpa aí, errei" e tem que continuar jogando. Mas pra trabalhar dentro dessa linha e ainda assim conseguir comunicar o espetáculo, você necessariamente precisa de atores com muita técnica. Porque se o ator não tiver técnica, não consegue fazer isso de verdade. É possível chorar e gritar com verdade um dia ou dois, mas fazer isso todos os dias durante uma temporada de um ou dois meses no mesmo horário e no mesmo local, só com muita técnica. E isso não se consegue com laboratório, descontração de esfíncter, ou sessões de psicanálise. Se consegue com muita técnica. Então com todo o respeito pela profissional séria que eu sei que a Bete é, eu gostaria de dizer pra ela que sua crítica que é tão honesta e tão bem intencionada, e em vários momentos de uma invejável argúcia e lucidez, poderia muito bem prescindir de uma frase boçal e generalizante como essa do finado Zé Lewgoy. Gostaria inclusive de recomendar à ela a salutar leitura do sinistro "A Piada Mortal" de Alan Moore, talvez assim ela compreendesse melhor a interpretação conscientemente burlesca do Gabriel na peça e a razão de minha opção por esse tipo de interpretação, particularmente nesse espetáculo.

Aliás falando nisso, todo mundo tá cansado de saber que sou chegado em trabalhar com emoção contida em muitas peças, até já fui ironicamente criticado em outras ocasiões por essa minha predileção. E pra terminar gostaria de dizer que com um pouco mais de Cioran com Miojo, Mangá com Diamanda Galás, cerveja Itaipava com Santo Agostinho, Mark Sandman com Demetrio Stratos, Reinaldo Moraes com Marcelo Mirisola, Ademir Assunção com Pepe Escobar, e porque não dizer Jorge Cardoso com André Kitagawa (a lista é enorme), todos os críticos irão entender de vez de onde vem esse misterioso poder de comunicação do Grupo.

E aí eu vou poder parar de escrever esse tipo de texto pra responder às criticas feitas e vou então ficar em casa só bebendo minha cerveja e escrevendo meus textinhos nojentos e sórdidos. Vai ser du caralho.

                                                                (Mário Bortolotto)



 Escrito por Cemitério de Automóveis às 19h48
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Este artigo foi publicado no Caderno Mais, da Folha de São Paulo de hoje.

contraponto

"Má Educação", de Almodóvar, e "O Que Restou do Sagrado", de Mário Bortolotto, tematizam o vazio da fé na sociedade contemporânea


Autobiografias da destruição

SCARLETT MARTON
ESPECIAL PARA A FOLHA

Em que medida somos determinados pela educação que recebemos? Qual o peso da religião que assimilamos? Qual a importância da formação que tivemos? Qual o papel do meio que freqüentamos? Existe lugar para Deus hoje em nossas vidas? Até que ponto a culpa promovida pela Igreja Católica não acabou por se tornar constitutiva do nosso ser? Essas são algumas questões que "O Que Restou do Sagrado", peça de Mário Bortolotto em cartaz no Espaço dos Satyros (tel. 0/xx/11/ 3258-6345), em São Paulo, e "Má Educação", filme recém-lançado de Pedro Almodóvar, suscitam no espectador.
Uma atriz de filmes pornográficos assassina três homens no momento em que por eles se deixa fornicar. Um homem se deleita com as carnes macias e rosadas de crianças. Outro ateia fogo num homossexual depois de presenciar um intercurso sexual.
Uma secretária, moça bem-comportada, mata a avó e, logo em seguida, o avô e parte da família. Uma jovem envenena o pai, escritor renomado; ao vê-lo agonizante, com ele faz sexo e, depois, publica como se fora da própria autoria o último livro por ele concebido. Um empresário bem-sucedido promove assassinatos em massa, distribuindo a crianças desnutridas leite em pó contaminado. O que poderiam ter em comum essas personagens? Reunidas numa igreja, um padre as incita a se confessarem.
Do arrependimento delas depende a salvação do mundo. Em vão. Pois é com o homicídio, a pedofilia, a homofobia, o assassinato, a necrofilia e o genocídio que dizem sentir prazer.
Ignácio Rodriguez, ator pouco conhecido em busca de trabalho, procura Enrique Goded, diretor de cinema em crise de criatividade. Ao velho amigo de escola, que não via havia 16 anos, ele entrega um relato de sua autoria. Nele narra vivências que então tiveram no colégio dos padres.
Fala do amor que sentia pelo amigo e dos abusos sexuais que sofreu por parte do diretor da instituição. O conto intitulado "A Visita" acaba por converter-se em roteiro de filme, protagonizado por Ignácio e dirigido por Enrique. No colégio, os dois alunos descobrem a sexualidade e a vivem enquanto transgressão. De um lado, o espontâneo e o lúdico; de outro, a violência e o poder.
Na peça de Bortolotto, o padre que instiga aquelas seis pessoas a se arrependerem se acha desorientado e perdido. No filme de Almodóvar, o padre que abusa do menino de dez anos aparece tomado por paixões devastadoras. Tanto num caso quanto no outro, desmonta-se a imagem de ministro de Deus. Bem mais. As seis pessoas reunidas na igreja não se importam com a salvação do mundo, porque não acreditam nela. O menino de dez anos no colégio se dá conta de que perdeu a fé e, com ela, perdeu o medo; por isso mesmo, torna-se capaz de tudo.

Eliminar para construir
No contexto da Igreja Católica, já não há mais lugar para o sagrado; no quadro dessa instituição milenar, dele nada restou.
Se Deus morreu, tudo é permitido. A velha frase indica que o ser humano perdeu os referenciais que por tanto tempo orientaram as suas ações. Sem parâmetros para nortear a própria conduta, ele tudo pode. Mas será que ele pode inclusive viver sem culpa? Em "O Que Restou do Sagrado", até que ponto as seis personagens que afirmam se deleitar com os seus atos se sentem inocentadas? Por que razão elas precisam se confessar?
Em "Má Educação", o abuso sofrido por Ignácio não teria sido determinante para que ele mergulhasse no mundo das drogas? A culpa por ele interiorizada não o teria levado a promover a própria destruição?
E aqui se abre outro leque de questões. Os acontecimentos vividos na infância são decisivos em nossa existência? Chegamos a nos tornar responsáveis por nossas ações? Quanto de nossas vidas está sob nosso controle? Qual a extensão de nosso livre-arbítrio, se é que ele existe? O fato é que, no mundo dessacralizado em que vivemos, o ser humano se vê abandonado à sua própria condição.
Na peça de Bortolotto, cada personagem é, à sua maneira, preconceituosa. E o preconceito consiste em não querer ver-se espelhado no outro. Em que medida o indivíduo que incendeia o homossexual não quer eliminar a parte homossexual que nele mesmo existe? Ou em que medida a atriz de filmes pornográficos não quer eliminar em seus parceiros o gozo desmedido que ela mesma sente? É graças à supressão do outro que se constroem essas identidades.
E, de igual modo, no filme de Almodóvar. O jovem, que se apresenta como Ignácio Rodriguez, mudou de nome; agora ele quer que o chamem Angel Andrade. À primeira vista, quer tornar-se um outro; na verdade, ele já é um outro. Pois não é de Ignácio que se trata, e sim de Juan, um Juan que precisou suprimir Ignácio para existir.
Central na obra do cineasta, a questão da identidade se põe ainda com maior ênfase na sua relação com uma das personagens deste seu trabalho. O diretor de "Má Educação" parece espelhar-se no diretor de "A Visita". Ambos os filmes são, em parte, relatos autobiográficos.
Num deles, com frieza e precisão matemáticas, Almodóvar transmuta momentos de sua vida; no outro, Enrique Goded se lança numa filmagem a ponto de ser por ela devorado e, entregando-se por inteiro à experiência, dela sair transformado. Afinal, neste mundo dessacralizado, cabe a cada um tornar-se o que é.


Scarlett Marton é professora titular de filosofia contemporânea na USP e autora de "A Irrecusável Busca de Sentido - Autobiografia Intelectual" (ed. Ateliê), entre outros.



 Escrito por Cemitério de Automóveis às 13h15
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